Eu atendo seres humanos.

 

Pode parecer mais um daqueles clichês, de frases prontas como “ eu olho pra você e vejo um ser humano”,  mas a real é que quando vou para o hospital de Doutora Magnólia,  atendo seres humanos, e por seres humanos quero dizer que :  Atendo pessoas sem saber do seu histórico.  Não faço a minima ideia se ali na minha frente se encontra alguém cujo as atitudes são consideradas “boas” ou “ruins” perante a sociedade. Diante de mim pode estar alguém cujo os valores diferem dos meus e isso não me interessa, atendo naquele momento alguém que por alguma razão se encontra no hospital seja no leito ,como acompanhante ou equipe técnica.

Muito provavelmente  atendo alguém cujo alguns princípios poderiam me entristecer. A verdade é que em cinco ou dez minutos do encontro entre palhaço e o atendido seja ele paciente, acompanhante ou equipe técnica não são suficientes para descobrir se diante de mim está alguém que coloca o arroz por cima do feijão e não o oposto ou alguém que cujo os valores sociais diferem dos meus. Nesses cinco ou dez minutos  talvez eu descubra o nome da pessoa, a idade e alguma outra coisa boba que o jogo entre nós propôs, talvez através do jogo, descubra que diante de mim se encontra um grande fã de polenta com molho assim como eu.

Além das diferenças, provavelmente encontro pessoas tão similares a mim que poderíamos facilmente passar horas na mesa de um bar conversando, mas nosso encontro se resume a breve minutos que se passam num piscar de olhos, sigo meu trabalho com chances de nunca mais retornar a ver aquele completo estranho que por um breve momento foi meu centro de atenção. Quando falo que atendo seres humanos falo da mais pura compaixão que o trabalho do palhaço exige, a gente trabalha pra fazer rir um completo desconhecido. Todos os meus anos de treinamento, os cursos e pesquisas que fiz, servem para, alegrar um desconhecido mesmo que seja por um curto período de tempo.

A questão toda desse meu encontro com o desconhecido parte da reflexão que todos os seres humanos querem ser felizes, até aqueles que discordam de mim, dos meus valores, do meu arroz por baixo do feijão. Talvez seja o desconhecido que torna o meu trabalho tão possível. É praticamente impossível viver uma vida sem fazer juízo de valores, mas para ser palhaço é necessário se afastar ao máximo deles. Nessa engrenagem social que vivemos, buscamos sempre o bem estar, nosso e de pessoas próximas, por quê não buscar o bem estar de desconhecidos? Antes de iniciar nosso trabalho no hospital estamos encarando uma neblina densa, desconhecida. Não sabemos ao certo o que vamos encontrar mas sabemos como encontrar. Treinamos o nosso tato, o nosso jogo, o nosso comportamento para trabalhar com arte e humor dentro do hospital, mas uma parte dessa neblina densa continua sem visibilidade, a parte que contempla o histórico de todos aqueles que encontramos na jornada.

Nosso trabalho é pautado em momentos, o encontro que ocorre em minutos, às vezes se repete ao longo de semanas ou meses, e acontece de acompanharmos pacientes por um bom tempo, ainda sim só conhecemos uma parte da sua vida. Conseguimos construir uma relação com um completo desconhecido, que vira um conhecido, como no caso de Amanda (nome fictício) uma menina perto da adolescência internada no Hospital da Criança  que  adora  funk, não tem uma vez que ela não peça para  cantarmos e dançarmos funk , mal sabe Amanda que por trás de toda minha maquiagem e enchimentos, no meu dia a dia eu não escuto funk, ela deve achar que sou uma grande entusiasta do gênero uma vez que a Dra Magnólia, dança e canta com muito fervor. Eu e Amanda nos diferimos no gênero musical mas temos algo em comum , eu também adoro ver palhaço cantando e dançando. Entro no hospital buscando atender pessoas, sejam elas quem forem, saio do hospital após ter atendido pessoas que não sei a fundo quem eram, nossos caminhos se cruzam por breves momentos que talvez voltem a se repetir.

Por Gabrielle Heinz - Dra. Magnólia

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