Movimento e pandemia

 


Com a pandemia senti que o movimento do meu corpo foi muito impactado. Há tempos trabalhando com teatro e em especial com a palhaçaria, tive sempre como princípio explorar todas as possibilidades espaciais com o meu corpo. Nos ensaios, treinamentos e momentos criativos, o meu corpo se sentia livre para repousar no chão da sala, rolar pela sala, subir e descer, explorar o potencial das paredes e objetos, deixava-se fluir como água e como vento.

Saia de casa, andava livremente na rua, entrava em lojas, mercados, observava, desejava, pegava, levava pra casa aquilo que eu precisava. Me encontrava com amigos na praça para uma cuia de chimarrão. Abraçava sempre muito forte meus amigos e familiares.

Com a pandemia, isso tudo mudou. A liberdade de andar na rua, foi interrompida. Não ando mais tranquila, evito ir nas lojas e mercados, não abraço meus amigos e meu corpo por 6 meses ficou trancado dentro de casa. As paredes do apartamento me protegiam do vírus, e aos poucos eu fui sufocando.

Minha cabeça não para de ter ideias, eu ando de um lado para o outro em busca do que fazer num apartamento pequeno. Olhar pela janela e ver ao longe, ajuda a abrir a mente, mas as vezes nem isso.

Mas o corpo, esse está travado, com medo e insegurança de se jogar, de interagir, de fluir. E isso tudo se reflete claramente no trabalho dentro do hospital. O hospital sempre impôs limites físicos para gente, como: evitar encostar nas camas, não entrar em isolamentos, não colocar as mãos no chão, higienizar as mãos com frequência, não falar muito alto, não enroscar no porta soro, entre tantos outros. A isso, nós já estávamos acostumados, e mesmo com essas limitações, conseguíamos fluir.

Hoje, com uma máscara PFF2 que nos protege do coronavírus, dificulta nossa fala, temos dificuldade para cantar e para fazer movimentos mais enérgicos. Cansamos mais rápido, porque a respiração fica pesada, a troca de ar fica pesada, a máscara pressiona o nariz e pesa a cabeça e não conseguimos tomar água durante a visita, porque ficamos com receio de mexer na máscara e deixar uma brecha para o vírus entrar.

Estamos precisando descobrir como nos libertarmos fisicamente, mentalmente também, mesmo durante uma pandemia.

A pandemia enclausurou nossos corpos, impôs limites biológicos, e nossos corpos reagiram se protegendo do excesso. Não vejo a hora dessa pandemia passar e poder andar livremente, poder libertar meus movimentos novamente. Até lá, pode ser que já tenhamos encontrado um jeito de fluir dentro dos limites.

Por Michelle Silveira da Silva - Diretora Artística - Dra. Barrica 

Comentários

Postagens mais visitadas