Desafios da pandemia

 


            O trabalho na pandemia tem sido desafiador, por vário motivos, mas vou citar três, que ao meu ver são os mais significativo e os quais conseguimos superar, devido a esforços particulares e coletivos, o primeiro trata da dificuldade em interagir com maquinas e acessórios de informática; a outra trata do não contato com o publico; por fim devemos citar a sobrecarga de conteúdo na rede, a partir disso fica mais claro a situação dos artistas que sobrevivem durante a pandemia, em especial a nós cujos trabalhos nos hospitais estão, total ou parcialmente suspensos.

            Quando se trata do uso de equipamentos e acessórios de informática, podemos acreditar que eles foram inventados e modificados para facilitar o uso, por pessoas que não possuem afinidades com a área da informática, é verdade que a maioria dos materiais da área se modificaram de uns 10 anos pra cá, ficando cada vez mais compactos e dinâmicos, porém, essas mudanças acontecem de forma rápida e diversificada, que fica cada vez mais difícil de entender muitas vezes suas utilidades e mecanismos, achar um computador de mesa, se tornou raro na atualidade, é possível encontrá-los em empresas e com pessoas que o utilizam para jogos ou utilidades específicas, a conectividade está na palma da mão, porém desconheço alguém que saiba todas as utilidades de um celular ou notebook atual sem ajuda de fóruns ou questionamentos em sites de busca, a infinidade de ferramentas que esses aparelhos utilizam para desempenhar seus papéis são inúmeras.

            O telefone que era utilizado tão somente para realizar ligações, foi assumindo outras finalidades, e o interesse em ligações foi dando espaço para a busca por melhores fotos, vídeos, lives e selfs, para isso é necessário observar a qualidade da câmera, as ferramentas do telefone, a memória, entre outras coisas, enfim, com isso é preciso perceber que as pessoas que tem acesso aos equipamentos de informática são as mesmas que ficavam movendo as antenas espinha de peixe para sintonizar melhor os programas de entretenimento no domingo a tarde, e que muitas vezes não conseguem entender todas as utilidades dos apps que existem nos seus telefones, e conseguir manipular esses equipamentos muitas vezes se transforma num exercício de paciência e descobrimento, portanto, para essas pessoas, a ação de se comunicar com o mundo para além das paredes do isolamento se torna num desafio absoluto, se adequar a essa necessidade de descobrir novas formas de se apresentar, se comunicar e trocar com o mundo externo, a comunicação que antes se dava numa calçada, num corredor, e um ônibus, hoje depende da conexão de internet, do equipamento, da disponibilidade do outro.

            O outro ponto que apresentei, foi o do não contato com o público, ao mesmo tempo que a internet se torna uma ferramenta de acessibilidade, ela determina com quem vamos nos comunicar, porque, até mesmo no meio de nossos conhecidos, é possível observar uma barreira na comunicação on line, o que estaria suprimida numa realidade da rua, ou de espaços comuns, onde a conversa acontece de forma direta, indireta, ou transversa, para o artista o público é a razão de fazer sua arte, de criar, e de nos comunicar, nos palcos ou na rua, encontrávamos um canal direto com as pessoas, com os outros, isso era fundamental para entregar nosso recado para as pessoas, no entanto, com a pandemia do covid-19 esse encontro ficou suspenso, nos apresentar por uma câmera, ou pela tela de um computador, torna o trabalho do artista “capenga” de mão única, visto, que o artista apresenta hoje, para ser visto mais tarde, amanhã, de madrugada, e o retorno não é mais dinâmico ou real, é algo virtual e desumano, pois enviamos as pessoas aquilo que imaginamos que é importante que elas vejam, o seu interesse foi suprimido pelas transmissões on line, por mais que hajam participações em lives, o retorno não é direto, e entender o recado intrínseco no recado, é quase impossível, mas vamos nos adaptando.

            Por fim, junto com essas dificuldades de comunicação e de encontro, temos a sobrecarga de informação e de conteúdo, a infinidade de materiais que as pessoas tem acesso na atualidade tem sido avassaladora de forma com que as pessoas muitas vezes não tenham filtro do que lhes é apresentado, apenas recebe, é muita informação, desinformação, e transmissões on line que aparecem no cotidiano das pessoas que fica difícil encontrar um lugar para nos encaixar, acredito que uma enorme parte de artistas tenha interesse em apresentar aos público o que está fazendo, ou o que pode fazer, e nessa ânsia de se comunicar, sobrecarrega o público de uma forma que é impossível ver tudo, ouvir tudo, então a disputa pelo material melhor aceito se tornou mais acirrado, quanto mais visualizações ou likes, melhor é minha condição, e o interesse na qualidade do que é oferecido ao público cai algumas posições, o importante nesse momento é ser produtivo, mas, como se manter produtivo, como manter o grau de avaliação de produtividade se pelo menos 50% dos nossos meios de produção foi suprimido? É injusta essa medida de produtividade, a tabela deveria se adequar a essa realidade que estamos vivendo, mas ela se manteve inerte, observado o alcance de iniciativas produtivas das pessoas, como se dali saísse uma receita de como sair desse processo de pandemia com sucesso, novamente balizado pela mesma medida anterior, o que é difícil de manter, pois a realidade que vivíamos não vai retornar, a normalidade não será mais normal, precisamos nos preparar para a nova realidade que se apresentará após essa situação finalizar, e as condições se assentarem.

            É impossível se sentar no meio do furacão e prever o caminho que ele vai tomar, é necessário observar e aguardar a direção que ele toma, tentar diminuir os impactos negativos disso tudo, mas, é interessante entender que por mais que o furacão seja rápido, por onde ele passa gera mudanças, enfim, o trabalho durante a pandemia, tem se apresentado dessa forma, desafiadora, para entendermos como vamos organizar o trabalho que desempenhamos nos hospitais, onde nos encaixaremos, que objetivos deveremos ter após isso, e principalmente qual horizonte enxergamos com as mudanças deixadas pela pandemia, quando ela diminuir.


Por Vinicius Eduardo Bourckhardt - Coordenador Geral - Dr. Chicote



Comentários

Postagens mais visitadas