Textos



RELATO DO DR. MOGNO
30/06/17
Quimioterapia do HRO





Hoje, os doutores Cambito e Mogno estavam com a corda toda.
Chegaram para iniciar o seu plantão de uma forma bem discreta, como de costume (#sqn).
Logo na recepção geral do hospital encontram um rapaz, chamado de F., rapaz bem afeiçoado, bonito e muito bem-educado. No meio da conversa, Dr. Cambito percebeu que F. estava sem meias e de imediato, preocupado com a saúde do rapaz Dr. Cambito começou uma jornada atrás de um par de meias para ele.
Dr. Mogno tentou acompanhar essa epopeia que seu colega acabara de iniciar, tentou, pois, ao virar a esquina do corredor avistou uma senhora cabisbaixa, parecia meio brava. Sabe uma cara de quem não queria papo? Mas isso foi o chamariz para o jovem doutor. Dr. Mogno chegou ao lado da senhora como quem não quer nada, sentou-se ao seu lado e apenas a cumprimentou com um sinal feito com a cabeça. A senhora retribuiu o cumprimento com um pequeno sorriso disfarçado bem no cantinho da boca. Dr. Mogno então, decide arriscar um pouco mais e pergunta o seu nome, a senhora então o olha e fala:
- Meu nome é C.
O doutor se apresenta também e vem com outra pergunta:
-  A senhora gosta de ganhar presente?
Eis que surge a primeira gargalhada, a resposta foi positiva. Diante disso o doutor lhe deu uma singela florzinha para que ela lembrasse dele.
 Mogno então perguntou com quem ela estava ali e ela respondeu:
- Eu sou sozinha, estou sozinha aqui.
 Então, o doutor palhaço resolveu que ela não poderia ficar mais sozinha e lhe entregou uma foto de seu rosto, assim toda vez que dona C. se sentir sozinha, ela pode olhar para o Dr. Mogno no retrato.
Nesse meio tempo o Dr. Cambito voltava feliz e orgulhoso porque tinha conseguido resolver a falta de meias do jovem F. Os dois Doutores juntos foram até F. mostrar a solução encontrada, mas para decepção deles o rapaz os informou que o sapato que ele usava não se usa com meias.

Coisas que acontecem, né?

Relato de Rafael Bairros de Oliveira - Dr. Mogno 


RELATO DA Dra. BARRICA
29/06/2017
Oncologia do HRO


Nessa manhã de trabalho, Dra. Barrica e Dr. Chicote estavam muito entrosados, se divertiram e divertiram as pessoas, estavam leves no jogo e nas dinâmicas que propunham.
Em alguns quartos foi festa, em outros, silêncio.
Nos quartos de festa, encontramos pessoas animadas, desejosas de mais umas flores para suas coleções, ganhamos nozes, fizemos bolo de aniversário “Real de Nozes”, entregamos presentes, dançamos, fizemos desfile de escola de samba pelos corredores, Barrica rainha da bateria, olhares curiosos surgiam porta a porta para ver o que se passava, abraçamos, beijamos amigos que reencontramos na Oncologia.
Nos quartos de silêncio, encontramos pessoas dormindo pelo efeito da medicação, com dor, com dificuldade de falar, com dificuldade de sorrir, mas nesses momentos mais difíceis, percebemos mais uma vez, como nossos pacientes são generosos. Mesmo na dor eles faziam um esforço para brincar. Não que nós exigíssemos isso, mas a nossa presença no quarto, talvez lembrasse a eles da alegria, da vida pulsante, que se manifestava na observação de um batom vermelho na boca do palhaço, da saia curta no corpo roliço da palhaça.
E mesmo na dor, a sra. L. com a parte inferior da boca comprometida pela doença, nos jogava beijos! A sra. Z. mesmo com o rosto expressando sua dor, esteve atenta e feliz a entrega de sua flor.
E tamanha foi a alegria no quarto das Sras. S. e H., que estavam animadíssimas e encheram nosso coração de alegria e certeza de estarmos no lugar certo, quando a Sra. H. nos diz em tom feliz e risonho:
- Estou muito feliz, eu vivi 70 anos para ver vocês hoje. Eu nunca tinha visto uma coisa assim, tão bonita!
Ela estava visivelmente encantada com os palhaços, não sabia quem a gente era, se éramos sérios ou de brincadeira. Mas claro que Dra. Barrica se mostrou bastante já que ela nunca tinha visto algo tão bonito nos seus 70 anos comemorados no dia anterior!
Dia puxado, mas um dia feliz de trabalho cumprido para além do desejado!
Com Dra. Barrica - Michelle Silveira da Silva
Com Dr. Chicote - Vinicius Eduardo Bouckhardt
Com registros de Amanda Stumm




Sobre uma bolsa chamada Arlete, ou “é no ínfimo que eu vejo a exuberância”


Nesta manhã, que foi bem chuvosa, cheia de poças d´agua e frio, fomos o Dr. Chicote e eu, ao Hospital visitar nossos pacientes, na ala da quimioterapia. Mais um dia em que só esperamos encontrar pessoas, nunca sabemos exatamente como estarão, nem quantas estarão, mas sabemos que estarão esperando alguém, ou uma consulta, ou uma internação. As vezes estão cansados, as vezes com dor, ou fome, ou tristes, ou animados, ou esperançosos, ou...
Hoje, mais um dia em que nos propomos a levar o nosso melhor para os pacientes, transitamos entre recepções, salas de espera e quimioterapia.
A cada dia descubro a minha incrível habilidade de falar a língua dos bebês, entre uma careta e outra e uma fala mais ou menos assim:
- Oh coisa tata, gaga, dudadadaduda!
As crianças vão rindo e se arriscam a estabelecer diálogos onomatopéicos comigo, o que me deixa muito feliz, na mesma proporção que se eu conseguisse falar em russo com um discípulo do Stanislaviski, ou com o próprio. Entre um corredor e outro o treino da língua dos bebês vai aprimorando-se e eu vou deslizando alegremente cheia de um orgulho besta que me faz sentir bem.
Também aproveitamos a oportunidade para divulgar nossas instalações no hospital, falamos sobre a decoração dos quartos, a quantidade de tvs de telas muito planas e mimos que deixamos nos aposentos de cada um dos pacientes que vão se internar. Lembramos sempre, que se gostarem podem nos pagar o aluguel na saída. A propaganda, enfim, é a alma do negócio.
Como não bastassem nossas habilidades, desconfiamos que uma paciente gostava, organizara ou dirigira radionovelas, ao que nos propomos a encenar as histórias melodramáticas, que acabaram sem grande conflito porque um dos pacientes preferiu ser ouvinte a ser o pivô do triângulo amoroso.
Confesso, as vezes nos desviamos do nosso propósito, que seria mesmo....
Bem, tudo é meio fora de propósito mesmo, então, seguimos para a sala de espera da quimioterapia, e para nossa grande surpresa encontramos lá vários personagens do velho e do novo testamento, bem conservados e bonitos. Descobrimos que Maria, substituiu José por Luiz e que Terezinha era de Jesus e dos Santos, quais não descobrimos porque, bem, achamos que seria muita invasão de privacidade.
Na quimioterapia mesmo, auxiliamos uma paciente que estava com frio, cobrimos, deixamos bem quentinha e colocamos uma revista aberta embaixo dos seus pés. Caso o frio viesse debaixo podia se distrair com as fofocas e não chegava até os pés dela. De repente fomos mesmo surpreendidos por um acompanhante invisível que ficou me seduzindo em ambiente de trabalho, imagine a situação. De passagem encontrei uma amiga de outros carnavais e nos abraçamos e juntas dançamos relembrando os velhos tempos de nossa amizade de infância. No final da dana ela me disse: - Me queira bem que não custa nada! E o Dr. Chicote disse, mas se custasse a gente pagava!
Depois de encontrarmos uma paciente com uma calça número 38, toda rasgada nas pernas, resolvemos remendar com esparadrapo e no final do atendimento descobrimos o seu segredo: o número dela é 40. Mistério das calças resolvido, partimos para o atendimento emergencial a bolsa Arlete que estava acompanhando uma acompanhante, sentada na cadeira. Depois de colocar o soro na bolsa, nos despedimos e fomos embora, finalizando mais um dia de trabalho bem produtivo.
No fim do dia, me vem a memória as risadas que foram provocadas com essas abordagens tão bobas, estúpidas, “ínfimas”. A cada dia tenho mais certeza que o treino de um palhaço de hospital deva ser muito mais do que qualquer coisa, o desenvolvimento de sua habilidade de crer, de imaginar, de criar, de jogar com o imprevisto, de agir e reagir aos estímulos generosos que o universo, que os pacientes, que os colegas de trabalho nos dão, muitas vezes sem nem perceber.
Me vem novamente a lembrança a frase do Manoel de Barros, o poeta das coisas sem importância “ é no ínfimo que eu vejo a exuberância”, e talvez seja esse, um dos lemas do palhaço, desenvolver a capacidade de ver exuberância, potência e graça em algo tão descabido, como numa bolsa cinza, que não tinha graça nenhuma, até receber o nome de Arlete, de ter recebido soro de morango e ser reconhecida como acompanhante.

Dra. Barrica - 26 de abril de 2016


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