Falta de recursos compromete trabalho de Doutores RiSonhos

(REPORTAGEM - Jornal Voz do Oeste - 15/08/2017) 
Projeto que leva alegria a pacientes dos hospitais conta com apoio da Lei Rouanet, mas precisa de adesão de empresas

“Agora não me faça pergunta séria”, brinca Michelle Silveira da Silva, após colocar o nariz vermelho e se converter na palhaça Barrica, personagem que integra o grupo de quatro palhaços dos Doutores RiSonhos, de Chapecó. Com a voz em uma sonoridade que flerta com a de uma criança, ela brincava com o Dr. Chicote (Vinicius Eduardo Bouckhardt) e demonstrava aos risos como é o trabalho que desempenha há cinco anos no Hospital Regional e da Criança do município.
Criado em 2012 e inspirado no projeto Doutores da Alegria, de São Paulo, os Doutores RiSonhos são um grupo de palhaços que fazem quatro visitas semanais nos hospitais Regional e da Criança a fim de animar e acolher os pacientes internos.
O programa conta com apoio da Lei Rounet, de incentivo à cultura, e é mantido por meio de recursos destinados por empresas. Devido ao caráter da Lei, as empresas de lucro real podem abater 4% do Imposto de Renda depositando-o na conta dos Doutores (aberta pelo Ministério da Cultura), que emite um “Recibo de Mecenato”. O recibo deve ser entregue pela empresa no momento que for quitar o Imposto de Renda.
Mas apesar do amparo da Lei não criar dolo à empresa, Michelle vê o trabalho do grupo comprometido pela falta de captação desses recursos.  “Em 2016 nós conseguimos realizar visitas o ano todo de forma remunerada. Fizemos todas as ações que pretendíamos, formação do grupo, oferecemos formação para a comunidade gratuitamente, palestras, montagem de espetáculo… Foram várias as ações quando captamos recursos. Agora em 2017 continuamos indo em hospitais, mas pretendemos ficar até metade do ano que vem.”
Segundo Michelle, o projeto atual disponibiliza o teto de R$ 298 mil para cumprir 10 meses de visitas semanais aos hospitais, bancar treinamento e remuneração dos palhaços, realizar oficinas e projetos gratuitos para à comunidade e outros gastos que envolvam as atividades do grupo.  Mas até o momento, Michelle disse que foram captados R$ 109 mil, o que não garante que o projeto caminhe “o quanto desejam”.


Caráter permanente  
Os valores, explica a atriz, são necessários para garantir essa permanência da atividade, pois diferente de um grupo que faz visitações esporádicas, os Doutores RiSonhos tem o comprometimento de realizar quatro visitas por semana, o que os coloca em contato direto com os pacientes.
Esse caráter permanente do projeto faz com que Michelle carregue lembranças de internos que viu deixar o leito e de internos que não estavam mais na segunda visita devido à morte.
Apesar de trabalharem sorrindo, sentimentos, diz, vêm à tona e reforçam a sensibilidade e importância do projeto dentro do quadro clínico do paciente. “Algumas pessoas estão sozinhas e quando entramos no quarto para brincar, cantar, eles ficam super felizes. Eles abençoam muito. Pedem para voltar, falam que é bonito. E mesmo quando a pessoa está bem adoentada, bem fragilizada, você chega e em um ato de generosidade a pessoa esquece da dor e vem brincar. Médicos já nos disseram que esse impacto é muito grande, pois as pessoas ficam mais felizes, o que contribui na recuperação delas”, destaca Michelle.
As visitas só acontecem com autorização do paciente e mesmo quando encontram pessoas inconscientes, com autorização do acompanhante, o grupo realiza o mesmo trabalho. “Embora ela não esteja consciente, talvez em algum nível esteja, e não é por isso que deixaremos de tratar com humanidade e respeito”, reforça Michelle, que quando está fantasiada de Barrica nos hospitais se assemelha muito mais a uma super-heroína do que a uma palhaça.
http://vozdooeste.com.br/2017/08/15/falta-de-recursos-compromete-trabalho-de-doutores-risonhos/ 

Comentários

Postagens mais visitadas