O olhar de dentro e o olhar de fora

Hoje pela manhã retornamos ao Hospital Regional para mais uma visita aos nossos pacientes da Quimioterapia. Hoje com a presença do Dr. Cambito que retornou de suas longas férias de verão, porque afinal, agora já é inverno. Depois de muita recepção calorosa e afetuosa de boas vindas, Dr. Chicote e Dr. Cambito seguiram para o seu plantão. Eu hoje, fui apenas como fotógrafa, tentando registrar o máximo que podia desta visita tão especial.
E depois da visita finalizada, fiquei pensando sobre a diferença do “olhar de dentro para o olhar de fora”. Quando estamos envolvidos no processo de trabalho, envolvidos na interação e no jogo com o paciente, acabamos não tendo a dimensão do quanto a nossa ação reverbera nas pessoas que estão ao nosso redor, e que muitas vezes o efeito da nossa ação se dá de forma indireta.

 Observando com o “olhar de fora”, pude ver claramente a mudança de energia acontecendo nas pessoas que eram abordadas pelos Drs. Cambito e Chicote. As técnicas utilizadas por eles no momento da ação tinham um efeito imediato, de desconstrução da realidade e resignificação desta. No momento em que perguntavam se a pessoa queria uma receita, ela ficava na dúvida, porque de receita ela já devia estar cheia, mas quando ofereciam uma receita de bolo, de ambrosia, de escondidinho, cri cri, a pessoa reconsiderava a possibilidade de receber uma receita nova, com nova perspectiva. Quando perguntavam se a pessoa desejava um atestado e o faziam batendo na testa, liberando-a das suas atividades de trabalho para ficar numa praia durante uma semana, talvez aí, estivessem ativando seus sonhos, seus desejos de descanso, de passeio, de viajem. E assim foram resignificando aos poucos esta realidade hospitalar.


O riso, motivo pelo qual atuamos, muitas vezes aparece largo, em gargalhada e muitas vezes tímido vem se “amostrando” nos lábios dos nossos pacientes, as vezes o riso vem no jeito de olhar, num aceno de mão, e as vezes ele nem vem. Nos momentos que ele não vem, respeitamos seu resguardo, lutamos por ele, fazemos o que podemos para que o riso se sinta à vontade de chegar, mas quando ele não está com vontade, respeitamos. Respeitamos a dor que o outro está sentindo, não sabemos da sua intensidade, as vezes nossas ações conseguem driblar a dor, mas quando não, respeitamos.
Mas uma coisa é muito certa neste trabalho tão intenso, difícil e bonito que é o de ser palhaço em hospital, que a nossa ação tem o poder transformador da energia de quem é abordado, direta ou indiretamente por nós. E estar olhando de fora me deu a dimensão de como o rosto, a expressão, a postura das pessoas vai mudando quando os Drs. Palhaços vão passando. Parecem dominós que vão caindo em sequência quando empurramos o primeiro da coluna, neste caso é a luz e o brilho das pessoas que vai reacendendo.
Agradeço ao Universo, a Deus pela oportunidade de estar realizando este trabalho, hoje e aqui! 

Por Michelle Silveira da Silva 

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